Resistência da madeira ao fogo.
- João Alves

- 4 de mai. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de mai. de 2025

Resistência ao Fogo da Madeira
A madeira é, frequentemente, percecionada como um material vulnerável ao fogo, em virtude da sua natureza combustível. No entanto, esta visão simplista ignora o seu comportamento real quando sujeita a temperaturas elevadas. Do ponto de vista da engenharia, a madeira revela um desempenho ao fogo notável, especialmente quando bem dimensionada e utilizada em secções adequadas, cumprindo os critérios do Eurocódigo 5 – Parte 1-2 (EN 1995-1-2), que regula o dimensionamento das estruturas de madeira para situações de incêndio.
A Origem Resiliente da Madeira
Muito antes da era dos dinossauros, as árvores já dominavam o ambiente terrestre. Espécies arbóreas como Archaeopteris povoavam o planeta há mais de 380 milhões de anos, desenvolvendo sistemas de suporte verticais que dariam origem à madeira como a conhecemos. Desde então, o fogo natural — resultante de descargas atmosféricas, erupções vulcânicas e combustão espontânea de matéria orgânica — tornou-se um elemento constante no ecossistema terrestre.
Ao longo da sua evolução, as árvores adaptaram-se ao fogo. Desenvolveram estruturas de proteção como cascas espessas, capacidade de regeneração pós-incêndio (rebentação epicórmica), e sementes pirófitas que germinam apenas após a exposição a altas temperaturas. Estas estratégias de sobrevivência deixaram marcas no próprio tecido lenhoso, tornando a madeira, enquanto material estrutural, um produto da adaptação ao fogo ao longo de centenas de milhões de anos.
Comportamento da Madeira em Situação de Incêndio
Quando uma peça de madeira é exposta ao fogo, a sua superfície começa por carbonizar, formando uma camada de carvão. Esta camada, longe de representar apenas destruição, atua como um isolante térmico natural, reduzindo a condução de calor para as zonas internas da secção estrutural. A taxa de carbonização é relativamente estável (cerca de 0,65 mm/min para madeiras de coníferas em condições padrão), permitindo à engenharia prever o tempo de resistência ao fogo com elevada fiabilidade.
A madeira mantém, portanto, durante um incêndio, a sua capacidade portante por um período significativo de tempo, assegurando:
A estabilidade estrutural temporária do edifício;
A possibilidade de evacuação segura dos ocupantes;
A proteção de compartimentos adjacentes, graças ao isolamento térmico oferecido pela camada carbonizada.
Entre a madeira intacta e a camada carbonizada existe uma zona de transição, termicamente afetada, mas que não deve ser considerada na verificação estrutural, dado que a sua capacidade mecânica é comprometida.
Comparação com Outros Materiais
A madeira comporta-se de forma significativamente distinta do aço, que perde cerca de 50% da sua resistência a 550 °C, e do betão, que sofre danos estruturais por fissuração e explosão térmica em temperaturas elevadas. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (ABIMCI, 2017), quando se comparam elementos de igual dimensão, a madeira apresenta uma resistência ao fogo semelhante à do betão e superior à do aço.
Além disso, a presença de madeira maciça nos edifícios contribui para reduzir a transmissão de calor entre compartimentos. Ensaios experimentais demonstram que a diferença de temperatura entre um compartimento em chamas e os espaços adjacentes protegidos por madeira pode ultrapassar os 140 °C, retardando a propagação do fogo e dos gases tóxicos.
Melhorias por Tratamento e Proteção Passiva
A resistência natural da madeira ao fogo pode ser melhorada através de tecnologias complementares:
Retardantes de chama: aplicados por impregnação ou revestimento superficial, reduzem a inflamabilidade.
Termorretificação: processo térmico que altera a composição molecular da madeira, reduzindo a sua higroscopicidade e aumentando a sua estabilidade térmica.
Revestimentos de proteção passiva, como placas de gesso laminado ou silicato de cálcio, são frequentemente utilizados em sistemas construtivos com CLT e GLULAM.
Estes sistemas são usados em conjunto com o sobredimensionamento da secção estrutural, permitindo prever com precisão o tempo de resistência ao fogo requerido por regulamentação (ex.: R30, R60, R90).
Normas e Referências Técnicas
O desempenho da madeira em situação de incêndio é regulado e previsto pelas seguintes normas e guias técnicos:
EN 1995-1-2 (Eurocódigo 5 – Parte 1-2) – Dimensionamento estrutural ao fogo;
EN 13501-2 – Classificação da resistência ao fogo de elementos construtivos;
ISO 834 – Curva padrão de incêndio;
Fire Resistance Design Manual (Gypsum Association);
Fire Protection Handbook (NFPA);
Fire Science Reviews (Kühne & Pichelin, 2014);
Handbook of Timber Engineering (Gonzalez-Fonteboa et al., 2018).
O dimensionamento deve considerar a taxa de carbonização nominal (ex. 0,65 mm/min para madeiras maciças em situações padrão), os requisitos de integridade e isolamento, e as estratégias de proteção passiva (como o uso de gesso cartonado, silicato de cálcio ou placas incombustíveis).
Conclusão
A madeira é muito mais do que um simples material combustível: é o resultado de milhões de anos de adaptação biológica ao fogo. A sua estrutura celular, herdada da árvore, oferece uma resposta previsível, estável e controlável em caso de incêndio. Quando corretamente projetada e protegida, a madeira pode superar outros materiais estruturais em termos de resistência ao fogo, aliando segurança, sustentabilidade e eficiência térmica.
Integrar madeira em edifícios não é apenas uma escolha estética ou ecológica, mas também uma decisão técnica fundamentada na sua resiliência, história evolutiva e comportamento físico sob condições extremas.
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A camada de carvão funciona como um isolante térmico e protector da estabilidade do elemento.
Referências Bibliográficas
ABIMCI (2017). Madeira e Fogo. Recuperado de: https://abimci.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Madeira-e-Fogo.pdf
Gonzalez-Fonteboa, B., Dieste-Martin, R., & Martinez-Vazquez, F. (2018). Fire Resistance of Timber Structures. In Handbook of Timber Engineering (pp. 899-923). CRC Press.
Kühne, S., & Pichelin, F. (2014). Fire Behaviour of Wood Products and Mass Timber Assemblies in Engineering Applications. Fire Science Reviews, 3(1), 1–24.
Fire Resistance Design Manual, Gypsum Association.
Fire Protection Handbook, National Fire Protection Association (NFPA).
Norman, J. (Ed.) (2009). Fire Engineering's Handbook for Firefighter I and II.

No caso de incêndio as vigas de aço deformam-se (perdem as suas propriedades mecanicas aos 770ª e a madeira aos 2000ª) completamente, enquanto que a viga de madeira ainda sustenta a carga mesmo após o contato com o fogo em altas temperaturas.




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