top of page

O campeão esquecido da construção sustentável: O Carvalho

Mais Forte, Mais Durável, Mais Sustentável: Porque Deixámos de Construir com Carvalho?


O Campeão Esquecido da Construção


Quando pensamos na construção moderna em madeira, a imagem que nos vem à mente é quase sempre a mesma: estruturas elegantes feitas de madeiras claras, de pinho ou abeto, muitas vezes sob a forma de produtos de engenharia como o CLT (Cross-Laminated Timber). Esta é a face visível de uma indústria que valoriza a rapidez, a padronização e a eficiência, contrastando a sua leveza com a presença densa e tranquilizadora das antigas vigas de carvalho.


No entanto, esta imagem esconde uma ausência notável. Onde está o carvalho? Esta madeira robusta, que durante séculos foi a espinha dorsal de catedrais, navios e pontes, parece ter desaparecido do léxico da engenharia estrutural contemporânea. Porque é que um material com provas dadas de resistência e longevidade foi relegado para um papel secundário?


A resposta é mais complexa e surpreendente do que parece. Não se trata de uma falha do material, mas sim de uma desconexão com o nosso modelo industrial atual. Vamos desvendar quatro verdades sobre este campeão esquecido que podem mudar a forma como olhamos para a construção do futuro.


Quatro Verdades Surpreendentes Sobre o Carvalho


O Problema Não é a Qualidade, é o Modelo Industrial


A primeira ideia a desmistificar é que o carvalho tenha sido abandonado por ser tecnicamente inferior. Na verdade, os seus atributos são notáveis. Com uma densidade elevada (entre 650 e 770 kg/m³), um módulo de elasticidade considerável (10-15 GPa) e resistências mecânicas superiores às das coníferas mais comuns, o carvalho é, por natureza, um material estrutural de elite.


Então, qual é o problema? A sua principal desvantagem é não se encaixar no molde da indústria moderna, que foi otimizada para as coníferas de crescimento rápido. Estas árvores oferecem uma madeira mais homogénea, que facilita a normalização e a produção em massa de produtos de engenharia. O carvalho, com a sua variabilidade natural, exige um processamento mais rigoroso e desafia a lógica da uniformidade industrial.


A sua marginalização na construção contemporânea resulta mais de condicionantes normativas e industriais do que de limitações materiais.


A Sua Lentidão é a Sua Maior Força


Num mundo obcecado com a velocidade, o crescimento lento do carvalho é muitas vezes visto como uma desvantagem económica. No entanto, é precisamente nesta lentidão que reside a sua maior virtude. Anos de crescimento lento traduzem-se diretamente numa maior densidade material.


Esta densidade é a base da sua robustez e da sua extraordinária longevidade estrutural. Ao contrário de materiais pensados para um ciclo de vida mais curto, o carvalho propõe uma arquitetura do tempo longo. Isto desafia-nos a repensar os nossos próprios valores: será que a rapidez de execução é mais importante do que a capacidade de construir edifícios que perdurem por gerações? O carvalho sugere que a verdadeira sustentabilidade reside na permanência.


Combina Resistência Estrutural com Durabilidade Natural


Uma das qualidades mais singulares do carvalho é a sua durabilidade natural excecional (classificada como classes 2-3, segundo a norma EN 350). Graças ao seu elevado teor de taninos — compostos naturais que o tornam amargo e tóxico para fungos e insetos —, a madeira de carvalho possui uma resistência intrínseca ao ataque de agentes biológicos.


O benefício prático é imenso: em muitas aplicações, o carvalho dispensa a necessidade de tratamentos químicos protetores, que são frequentemente necessários noutras madeiras. Isto alinha-se perfeitamente com os princípios de uma construção mais saudável e ecológica. Mais importante ainda, o carvalho obriga-nos a entender que, numa estrutura, a resistência mecânica e a durabilidade não são problemas separados. A capacidade de resistir à degradação ao longo do tempo é uma parte integrante e fundamental do seu desempenho estrutural.


O Seu Futuro Não é Substituir, mas Sim Elevar a Construção


A revalorização do carvalho não implica que este deva substituir as coníferas em todas as aplicações. Seria impraticável e desnecessário. A visão para o seu futuro é muito mais inteligente e estratégica: a sua utilização seletiva em elementos-chave onde as suas qualidades de força, durabilidade e estética são mais valorizadas.


Pensemos em pilares imponentes, vigas principais que definem um espaço ou estruturas que ficam visivelmente expostas. O seu uso pode ser integrado em sistemas híbridos ou em novas aplicações, como a madeira lamelada colada de folhosas. Esta abordagem seletiva traz consigo enormes vantagens de sustentabilidade, promovendo a gestão das florestas locais, reduzindo a pegada de carbono associada ao transporte de materiais e fomentando uma verdadeira economia circular.


Conclusão: Construir com um Sentido de Permanência


O carvalho não é uma relíquia do passado, mas sim um material tecnicamente competente e cientificamente relevante para os desafios do futuro. A sua ausência na construção atual não se deve a fraquezas inerentes, mas sim às restrições de um sistema industrial e normativo que privilegiou a velocidade e a padronização em detrimento da longevidade e da resiliência.


Reintegrar o carvalho na nossa paleta de materiais exige rigor técnico e uma visão mais ampla do que significa construir de forma sustentável. Talvez a verdadeira medida da inovação não esteja na rapidez com que construímos, mas na nossa capacidade de criar estruturas que durem.



Num tempo marcado pela urgência climática, o carvalho propõe uma engenharia menos efémera, onde a inovação não se mede apenas pela rapidez de execução, mas pela capacidade de construir com sentido de permanência.

 
 
 

Comentários


bottom of page