
Quando a madeira deixa de ser discurso
- João Alves

- 4 de jan.
- 3 min de leitura
O Instituto de Investigação da University of Arkansas como arquitetura de maturidade
Durante anos, a construção em mass timber foi apresentada como promessa. Depois como manifesto ambiental. Hoje começa finalmente a afirmar se como normalidade técnica e cultural.
O novo Instituto de Investigação da University of Arkansas é um exemplo claro desse momento de maturidade. Não procura ser icónico nem pedagógico no sentido retórico. Limita se a fazer aquilo que a boa arquitetura sempre fez: usar os materiais certos nos lugares certos pelas razões certas.
Madeira onde há pessoas. Aço onde há máquina.
A estratégia estrutural do edifício é clara, objetiva e descomplexada.
O núcleo central, onde se concentram laboratórios com equipamentos altamente sensíveis, como ressonância magnética e instrumentação pesada, é resolvido em estrutura metálica. A decisão é técnica e prende se com o controlo rigoroso de vibrações, com a gestão de cargas concentradas e com a flexibilidade futura dos espaços.
Em contraste, os espaços públicos, de circulação, de encontro e de trabalho colaborativo, nomeadamente o grande átrio central, são construídos em CLT e glulam, com a estrutura assumida, visível e perfeitamente legível.
Não existe aqui qualquer tentativa de impor a madeira como solução universal. Existe, sim, o reconhecimento de que a arquitetura contemporânea se constrói por sistemas híbridos, onde cada material atua no domínio em que é mais eficiente.
A madeira como sistema e como forma
O átrio central em madeira tem sido descrito como evocando uma copa de floresta, sobretudo pela forma como a luz natural entra através de claraboias aparentemente irregulares. Essa leitura é válida, mas não é suficiente.
Mais relevante do que a metáfora é a lógica estrutural subjacente. A repetição de vãos, a continuidade dos elementos, a leitura clara dos caminhos de carga e a articulação entre estrutura, luz e escala revelam uma abordagem onde a madeira não funciona como revestimento simbólico, mas como verdadeira estrutura espacial.
A resistência não está apenas na secção das peças, mas na inteligência do sistema construtivo, amplamente documentada na literatura técnica sobre CLT e glulam.
Esta abordagem aproxima se mais da construção vernacular em madeira, onde forma, estrutura e uso são indissociáveis, do que de muitas experiências contemporâneas excessivamente formalistas.
Material regional como decisão técnica e territorial
A utilização de Southern Yellow Pine, proveniente da região, é um aspeto central do projeto. Não se trata de um gesto estético nem de um argumento de marketing ambiental.
É uma decisão estrutural, económica e territorial que ativa uma cadeia produtiva local, valoriza conhecimento industrial existente, reduz impactos associados ao transporte e reforça a relação entre arquitetura e território.
A sustentabilidade, quando levada a sério, não se resume à redução abstrata de carbono. Implica decisões construtivas enraizadas em contextos reais, como tem vindo a ser demonstrado pela investigação científica sobre impacto ambiental dos materiais.
Um edifício que ensina sem se explicar
Este instituto não precisa de painéis explicativos sobre sustentabilidade nem de discursos moralizantes. Ensina de outra forma, através da clareza estrutural, do conforto espacial, da qualidade da luz e da normalidade com que a madeira é utilizada.
É um edifício que contribui para formar cultura técnica e não apenas para alojar ciência. Nesse sentido, funciona também como um laboratório arquitetónico silencioso, confirmando que o mass timber já não é exceção, mas uma alternativa plenamente consolidada.
Leitura EcoSistema
Este projeto não é radical. É maduro.
Não força a madeira onde ela não é a melhor solução. Não a esconde onde ela pode qualificar o espaço. Não a transforma em fetiche moral.
Mostra algo essencial. A construção em madeira chegou a um ponto em que já não precisa de se justificar. Precisa apenas de ser bem pensada, bem dimensionada e bem construída, em conformidade com normas, desempenho e contexto técnico.
Conclusão
A arquitetura em madeira não é um futuro distante. É o presente, quando integrada como sistema construtivo, espacial e cultural.
O Instituto de Investigação da University of Arkansas demonstra isso com uma serenidade rara. A madeira surge como estrutura, como espaço e como infraestrutura de conhecimento.
É nesse território, entre técnica, forma e responsabilidade, que a arquitetura verdadeiramente contemporânea acontece.
Bibliografia
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